Alunos especiais ensinam o valor de conviver com as diferenças

Inclusão efetiva depende de maior autonomia dessas crianças e socialização com os colegas

Por Minha Vida - publicado em 13/08/2009


Lição número 1: aprender com as diferenças. O tema não aparece no currículo e nem está sujeito a nenhum tipo de avaliação, mas é difícil encontrar quem saia reprovado. Numa sala de aula, convivem crianças (ou jovens) com histórias e habilidades diferentes. Os interesses também são variados e, de acordo com o envolvimento do professor, esse dia a dia tem tudo para render experiências que ficam na memória da vida adulta em diante.

E, a partir de 2009, a riqueza que vem da diversidade só tende a aumentar. Segundo as diretrizes nacionais que passaram a valer no início deste ano, os alunos com necessidades especiais passam a dispor de atendimento personalizado nas escolas públicas. "O professor recebe treinamento para lidar com essas crianças e as escolas precisam ajustar seus espaços para recebê-las", afirma a psiquiatra infantil Patrícia Gouveia Ferraz, especializada em dificuldades de aprendizagem.

A medida tem a inclusão por meta. A ideia é acabar com o preconceito e também com o medo que alguns funcionários apresentam na hora de lidar com crianças cegas, surdas, mudas ou com síndrome de Down, por exemplo. "Mas não basta apenas aceitar estes alunos, é preciso estar pronto para atender as necessidades deles, daí a importância dos treinamentos " afirma a psiquiatra. "Muitas vezes até a nomenclatura que se dá para a situação das crianças faz diferença. Dizer deficiente visual em vez de cego dá margem para a interpretação de cada educador sobre a real necessidade da criança, e o aprendizado pode ficar comprometido".

Com isso, não são apenas os problemas de aprendizado que são resolvidos. Muitas dificuldades emocionais, das crianças e dos pais, também tendem a perder espaço. "As crianças, algumas vezes, nem chegam a perceber a rejeição. Mas muitos adultos acabam deprimidos quando percebem que o filho deles não é bem-vindo na escola", afirma a especialista.

Diferença nas estatísticas
A legislação é nova, mas já mostra seus efeitos. Segundo a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação (Seesp/MEC), foram matriculados 305 mil alunos especiais no ensino regular no ano de 2009. Em 1999, esse índice correspondia a apenas 13% do número atual. Em São Paulo, a rede estadual registra 2.725 alunos com deficiências e, para atendê-los, o governo estadual mantém 247 salas multifuncionais (aptas para atender todos os alunos) e 5.500 salas adaptadas (salas convencionais reformuladas para receber estas crianças, mas não totalmente apropriadas como as multifuncionais).

Incluir para quem?
Segundo a psiquiatra infantil Patrícia Gouveia Ferraz, o grande problema é entender pra quem a inclusão vai ser importante. Ela explica que, em geral, seus pacientes procuram alfabetizar seus filhos para que não sofram com o julgamento da sociedade, mas não para dar-lhes a autonomia necessária que a rotina diária exige. "Esse gesto dos pais pode gerar mais preconceito do que inclusão, na medida em que fazem questão de ter um filho alfabetizado, mas não percebem que talvez ele precise primeiramente conseguir executar tarefas simples do dia a dia, como comer sozinho, por exemplo", explica a psiquiatra. "Dessa forma, a criança fica exposta. O correto é aliar educação e autonomia para fazer com que a criança se sinta bem, acolhida e feliz".

Desafio dentro da sala de aula
Segundo Ariane Tupinambá, da Fundação Síndrome de Down, o segredo para a inclusão ser efetiva é observar as necessidades de cada criança, sejam elas decorrentes de uma deficiência ou não. "A reflexão sobre as particularidades de cada sujeito também implica em não padronizar modelos de aula, materiais e avaliações. Neste sentido, o aluno com deficiência seria só mais um aluno em uma escola recheada de diferenças", diz ela.

Maria das Graças de Oliveira, professora de uma escola pública em Guarulhos (SP), conta que se viu de mãos atadas diante do desafio de educar crianças com necessidades especiais diferentes entre si: "A integração é importante, mas tem que haver formação específica dos professores. É complicado aplicar a mesma aula para deficientes auditivos e portadores de Down, por exemplo. Cada um demanda um método de ensino de acordo com a sua dificuldade", conta.

Já para a professora Ana Lucia, o maior desafio é explicar aos demais alunos que a convivência é possível e que eles podem interagir sem receio. "Os alunos, geralmente, não se aproximam do coleguinha especial com medo de machucar ou de ser machucado. Eles não sabem como lidar com a situação e fica difícil para o professor conciliar tanta falta de informação", diz ela.

Encurtando o caminho
Há três anos, o projeto piloto Canto das Diferenças, realizado na escola pública estadual Hegésipo Reis, no Rio Grande do Norte, decidiu abraçar a causa de que a integração faz parte de um exercício de aprendizado para todos os envolvidos. Dança, canto e brincadeiras estão na lista das atividades praticadas por pais, alunos e comunidade.

O objetivo é fazer com que os alunos participem das oficinas para que entendam que existem apenas diferenças, e não obstáculos para a convivência. "Durante esse período, vivenciamos a história de crianças que não falavam, por algum bloqueio psicológico, se socializarem com as outras crianças e até voltarem a falar ou a emitir sons. Um grande avanço", diz a coordenadora do projeto Cláudia Santa Rosa, psicopedagoga do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE).


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